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Teatro sem plateia: a contradição da 35ª edição do Festival Estudantil de Teatro

Atualizado em 20/10/2026

ARTIGO

Por Gabriele Mallmann

De que adianta abrir as cortinas se não garantimos ao público o direito de ocupar as cadeiras?

Nesta segunda-feira, 19 de outubro, Poços de Caldas deu início à 35ª edição do Festival Estudantil de Teatro (FET). São 35 edições de história, 47 apresentações previstas e centenas de estudantes envolvidos em processos de criação artística. Um patrimônio cultural e educativo que merece ser celebrado. Mas há uma contradição que não pode passar despercebida: enquanto o discurso oficial enaltece a democratização do acesso à cultura e a formação de público, a realidade revela um teatro com inúmeras cadeiras vazias.

Às vésperas do festival, as escolas foram informadas de que, devido a problemas logísticos com a empresa responsável, não haveria transporte disponível para levar os estudantes às apresentações. Como alternativa, sugeriu-se que as unidades escolares custeassem o deslocamento com recursos próprios, provenientes do caixa escolar ou do PDDE.

A questão, entretanto, ultrapassa um simples problema de logística. Trata-se de uma escolha de prioridades e de uma responsabilidade que não deveria ser transferida às escolas. Afinal, como falar em democratização cultural quando não se garantem as condições materiais para que ela aconteça?

A imagem divulgada pela Prefeitura na abertura do festival apresenta uma plateia cheia. Entretanto, o registro de outra apresentação, também neste primeiro dia, revela uma realidade bastante diferente: fileiras e mais fileiras de poltronas vazias. O contraste entre as imagens não invalida a cerimônia de abertura, mas evidencia uma questão que merece ser discutida: não basta garantir público para a solenidade; é preciso garantir público para o teatro.

O FET não é apenas uma sucessão de espetáculos. É um espaço de formação estética, de encontro entre escolas, de valorização da produção estudantil e, sobretudo, de exercício do direito à cultura. Para muitos estudantes da rede pública, a oportunidade de assistir a uma apresentação teatral depende justamente da mediação e das condições oferecidas pela escola.

É preciso lembrar, ainda, que formar público não significa apenas ocupar cadeiras. Significa criar oportunidades de encontro com a arte, despertar sensibilidades, ampliar repertórios e permitir que crianças e adolescentes reconheçam o teatro como um espaço que também lhes pertence.

O trabalho de estudantes, professores e arte-educadores, construído ao longo de meses de ensaios, merece encontrar uma plateia. E os estudantes que poderiam estar nessas poltronas merecem muito mais do que a justificativa de um imprevisto logístico.

Celebrar 35 edições de um festival é reconhecer sua história. Mas respeitar essa história exige compromisso com sua continuidade e com as condições concretas de participação.

Porque um festival estudantil de teatro não se sustenta apenas com palcos iluminados, discursos oficiais e fotografias de cerimônia. Ele precisa de estudantes. No palco e na plateia.

Gabriele Mallmann é professora de teatro do Conservatório Musical Antônio Ferrucio Viviani e mestra em educação e saúde pela Unifesp.

 

 

*Com informações de Folha Popular.

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