MPSP denuncia mãe e padrasto por tentativa de matar bebê de 1 ano em São João da Boa Vista
Atualizado em 19/10/2026
Criança teria sido submetida a meses de tortura e sofreu traumatismo craniano grave; Ana Júlia de Carvalho Neves, de 20 anos, e Tiago Willians Leal, de 33, são acusados de tortura e outros crimes

O Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) denunciou Ana Júlia de Carvalho Neves, de 20 anos, e Tiago Willians Leal, de 33, por tentativa de homicídio qualificado contra um menino de 1 ano, filho da mulher, em São João da Boa Vista (SP). A denúncia foi apresentada na última sexta-feira (16) pelo promotor de Justiça André Pereira Melo e também atribui ao casal os crimes de tortura, falsidade ideológica e fraude processual.
Segundo o Ministério Público, a criança teria sido submetida a diversas formas de violência física e psicológica entre abril e junho deste ano. O episódio mais grave ocorreu em 19 de junho, quando o menino sofreu um traumatismo craniano grave após, conforme a denúncia, o casal administrar uma substância sedativa e sacudi-lo violentamente.
Ana Júlia é mãe da criança, e Tiago é o padrasto. Os dois foram presos preventivamente em 31 de agosto, conforme informações divulgadas durante a investigação policial. A Polícia Civil concluiu o inquérito em 14 de outubro e indiciou ambos por tortura e tentativa de homicídio.
Criança ficou 29 dias internada
De acordo com a denúncia do MPSP, no dia 19 de junho, após semanas de agressões, os acusados teriam administrado à criança uma substância de forte efeito sedativo e, em seguida, sacudido o menino violentamente para dissimular a intoxicação.
A criança sofreu uma grave lesão cerebral, chegou à Santa Casa de São João da Boa Vista em coma profundo e apresentou uma parada cardiorrespiratória. Após ser estabilizada, foi transferida para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde permaneceu internada por 29 dias sob ventilação mecânica.
Durante o atendimento, os denunciados teriam atribuído os ferimentos a uma queda da cama e omitido dos profissionais de saúde a administração de sedativos.
A investigação da Polícia Civil reuniu laudos médico-legais, prontuários hospitalares, registros do atendimento do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), depoimentos de profissionais de saúde e testemunhas, além de perícias e análises de celulares.
Segundo o delegado Fabiano Antunes de Almeida, responsável pelo caso, os exames identificaram lesões cranianas e oculares compatíveis com mecanismos de aceleração e desaceleração e com trauma craniano abusivo. Conforme a perícia, o conjunto de lesões era incompatível com as explicações acidentais inicialmente apresentadas.
Denúncia aponta agressões reiteradas
Conforme o Ministério Público, entre abril e junho, a criança teria sido submetida a agressões com chinelos e colher de madeira, sufocamento, submersão do rosto em água, confinamento, privação de descanso e administração de medicamentos sedativos sem prescrição médica.

A Polícia Civil também informou, durante a investigação, que foram identificados elementos relacionados a castigos físicos, procedimentos com água, uso de medicamentos e tentativas de ocultar marcas corporais.
Segundo o delegado, a apuração não se limitou à análise dos celulares. Os investigadores reuniram diferentes elementos de prova para reconstruir o histórico de violência e esclarecer as circunstâncias das lesões sofridas pelo menino.
O MPSP afirma ainda que o casal teria apagado conteúdos dos aparelhos celulares e utilizado mídias de visualização única para dificultar a produção de provas.
Ministério Público pede prisão preventiva e perda do poder familiar
Na denúncia, o promotor atribui a Tiago Willians Leal o papel de mentor das agressões. Segundo a acusação, ele teria idealizado, determinado e orientado os castigos, além de registrar parte das situações em vídeos e fotografias.
Ana Júlia de Carvalho Neves é acusada de participar fisicamente das agressões e de não proteger o filho, apesar de sua responsabilidade legal de garantir a segurança da criança.
O Ministério Público pediu a prisão preventiva dos dois, alegando a gravidade dos crimes e o risco de destruição de provas e intimidação de testemunhas. Também requereu a fixação de reparação mínima de R$ 100 mil pelos danos causados à vítima e a perda do poder familiar da mãe.
Entre as medidas de proteção solicitadas estão o acompanhamento integral da criança pelas áreas de educação e assistência social, vaga imediata em creche, inclusão no Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos (Paefi), atendimento psicossocial e avaliação para concessão de benefícios assistenciais, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC).
O promotor também pediu que os acusados sejam submetidos a julgamento pelo Tribunal do Júri. Segundo a denúncia, a violência teria ocorrido de forma progressiva, ao longo de semanas, com planejamento e emprego de métodos cruéis.
Os dois deverão responder conforme os termos da Lei dos Crimes Hediondos, segundo o MPSP. As acusações ainda serão analisadas pela Justiça.

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