Monazita com as cobiçadas terras raras embarcam de Buena (RJ) para o Canadá pela ADL mineração
Atualizado em 17/04/2026
Monazita com as cobiçadas terras raras embarcam de Buena (RJ) para o Canadá pela ADL mineração
A partir de um contrato firmado com a Indústrias Nucleares do Brasil (INB), em 2024, a ADL Mineração acaba de exportar monazita para o Canadá. O mineral, rico em elementos de terras raras como cério, lantânio e neodímio, além de tório, “é peça-chave nas cadeias produtivas de tecnologias estratégicas, da fabricação de ímãs permanentes de alta potência para veículos elétricos e turbinas eólicas a componentes eletrônicos, equipamentos de defesa e aplicações nucleares”. A empresa não informou a data do embarque, a quantidade exportada e quanto rendeu para o Brasil, via INB. A expectativa da ADL, conforme a empresa informou, é exportar entre 500 e 1.000 toneladas de monazita até o final de 2026, com destino a outros mercados como Estados Unidos e China, além do Canadá.

ARRANJO CONTRATUAL –
A operação da ADL foi possível por conta de “um arranjo contratual inédito” firmado com a INB em 2024, quando a estatal era presidida por Adauto Seixas. Por meio de uma oferta pública, a ADL venceu a disputa e assinou um contrato de cessão onerosa de direito de uso, por 30 anos, da Unidade em Descomissionamento de Buena (UDB), localizada em São Francisco de Itabapoana, no norte fluminense. “
Na prática, a cessão onerosa transferiu à ADL a operação da usina de beneficiamento e das áreas associadas, permitindo que a empresa processe minerais extraídos de jazidas sob sua própria titularidade. A ADL não adquiriu a propriedade do ativo, que segue pertencendo à INB, mas obteve o direito de uso produtivo da infraestrutura”. E acrescentou:
“Em contrapartida, a INB — que antes arcava com custos fixos de manutenção da unidade na ordem de R$ 1,1 milhão por mês — passou a receber uma receita composta por três elementos; um pagamento fixo mensal de R$ 100 mil, royalties calculados sobre o faturamento da operação e um percentual adicional destinado a um Fundo de Descomissionamento da unidade. A estimativa é que o contrato gere para a estatal uma economia de R$ 390 milhões ao longo dos 30 anos de vigência, além de transformar o que era um custo em fonte de receita. O modelo é o primeiro do tipo adotado pela INB e pode servir como referência para outros ativos da estatal”.
Na Unidade de Buena, a INB operava o beneficiamento das areias, separando ilmenita, zirconita, rutilo e monazita. Porém, a partir de 2010, a estatal suspendeu a lavra e a produção se limitou ao processamento de estoques remanescentes. A cessão onerosa para a ADL representa a fórmula encontrada para viabilizar a retomada: a empresa privada opera a infraestrutura e processa minerais de suas próprias jazidas, enquanto a INB mantém a titularidade do ativo e o controle sobre os materiais nucleares. “Esta é a primeira vez, após décadas, que uma empresa privada brasileira realiza esse movimento, o que reforça o potencial do país no mercado global de terras raras”, diz Lee. Segundo a executiva, o amadurecimento do ambiente regulatório foi determinante para viabilizar a operação.
MONOPÓLIO – No texto divulgado, a ADL tenta contar um pouco a história oficial nuclear brasileira. “A presença da INB nesse mercado é reflexo do arcabouço legal brasileiro: a Constituição Federal estabelece que a pesquisa, a lavra e o aproveitamento de minerais nucleares são monopólio da União. Como a monazita contém cerca de 6% de tório e 0,3% de urânio, sua exploração sempre ficou sob o guarda-chuva da estatal”.
Tenta também relembrar fatos históricos mencionados em pesquisas e livros, como Cobaias da Radiação – a história não contada da marcha nuclear brasileira e de quem ela deixou para trás”, sem registrar qualquer menção ou referência aos profissionais que executaram o trabalho. “Em 1960, o governo estatizou as operações privadas de extração de monazita no litoral — empresas como a Orquima e a Mibra foram incorporadas ao aparato que se transformaria na INB”.
Das páginas 63 em diante, o livro, resgata diversas informações que a ADL usa, sem mencionar os créditos, inclusive dos pesquisadores citados em Cobaias da Radiação; “A monazita brasileira tem uma história que remonta ao século XIX. O potencial das areias monazíticas do litoral foi identificado na década de 1880, quando o engenheiro americano John Gordon notou a coloração diferenciada das areias nas praias do sul da Bahia, na região de Prado e Cumuruxatiba. Análises confirmaram a presença de monazita rica em tório, e as areias passaram a abastecer a indústria europeia de iluminação a gás — o sistema do austríaco Carl Auer utilizava óxido de tório para produzir a chama incandescente das luminárias públicas. A exploração se estendeu rapidamente do sul da Bahia ao litoral do Espírito Santo e do Rio de Janeiro. A areia monazítica é composta por minerais pesados como ilmenita, magnetita, monazita, zircão, granada e rutilo, com concentração que varia de zero a mais de 60% dependendo do local. O ponto mais emblemático dessas ocorrências é Guarapari (ES), conhecida como “Cidade Saúde” desde a década de 1930 pela fama terapêutica de suas praias da Areia Preta e de Meaípe. Pesquisas da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) apresentaram evidências de que a radiação natural dessas areias, baseada no tório, não oferece riscos à saúde e pode ter efeitos benéficos. A história das areias monazíticas, porém, também carrega um capítulo sombrio. Entre as décadas de 1930 e 1950, grandes quantidades foram exportadas clandestinamente — sobretudo pela empresa Mibra, de Boris Davidovitch — para abastecer o programa nuclear americano. Estima-se que mais de 200 mil toneladas de areia foram retiradas do litoral brasileiro ao longo de cinco décadas. O escândalo resultou em uma CPI da Energia Atômica e foi um dos fatores que levaram à estatização do setor na década de 1960”.
Dados oficiais informam que o Brasil detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo, estimada em 14 milhões de toneladas (cerca de 15% do total global), atrás apenas da China (44 milhões de toneladas). No entanto, essa riqueza nunca se converteu em protagonismo produtivo — enquanto a China chegou a controlar mais de 90% da produção mundial, o Brasil permaneceu como ator marginal. Além da ADL, o único outro produtor ativo no país é a Serra Verde, que opera em Goiás com argilas iônicas, mas sem realizar a separação dos elementos individuais”.
O livro Cobaias da Radiação, de Tania Malheiros, foi prefaciado pelos jornalistas Cristina Serra e André Trigueiro.
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(taniamalheiros-jornalista.blogspot.com) (malheiros.tania@gmail.com)
(FOTO – ADL e INB )

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