INB Caldas segue travada por 11 mil toneladas de resíduo radioativo após 30 anos de paralisação
Atualizado em 24/11/2025
Material conhecido como Torta II impede avanço do descomissionamento da primeira mina de urânio do Brasil, fechada desde 1995

Três décadas após o encerramento das atividades, a unidade da INB – Indústrias Nucleares do Brasil em Caldas, onde funcionou a primeira mina de urânio do Brasil, ainda enfrenta um impasse decisivo para iniciar seu processo de descomissionamento: definir o destino de mais de 11 mil toneladas de um resíduo radioativo chamado Torta II.
A unidade, que operou nos anos 1980 e produziu 1,5 mil toneladas de concentrado de urânio para abastecer Angra I, foi fechada em 1995. Desde então, a área permanece improdutiva, acumulando passivos ambientais complexos e esperando autorização para iniciar o desmonte das estruturas remanescentes.
Em janeiro deste ano, o Ibama concedeu à INB a primeira licença ambiental para o descomissionamento. No entanto, nenhuma etapa estrutural poderá avançar enquanto não houver uma solução para a Torta II, considerada o maior entrave do processo.
O que é a Torta II
A Torta II é um resíduo formado a partir do processamento químico da monazita realizado entre as décadas de 1950 e 1980 na antiga Nuclemon, em São Paulo. O material foi enviado para Caldas nos anos 1990 e hoje soma 11.334 toneladas.
Com cerca de 50% de tório e 1% de urânio, o material possui potencial de reaproveitamento industrial, mas permanece armazenado em galpões e silos sem definição de destino. A ANSN (Autoridade Nacional de Segurança Nuclear) afirma que as condições atuais de armazenamento são seguras e atendem aos padrões radiológicos.
A Torta II é mantida em:
- 19,6 mil tambores de 200 litros
- quantidade semelhante de bombonas de 100 litros
- quatro silos de concreto semienterrados
Nos últimos anos, a INB reforçou a segurança com a troca de telhados, sobre-embalagem de tambores deteriorados e substituição de pallets de madeira por modelos metálicos.
Preocupação da comunidade
Apesar das medidas adotadas, o material sempre gerou apreensão em Caldas. A área de 18 km² onde está a mina fica a 12 km do centro urbano e é cercada por rios, córregos e pela APA Pedra Branca, aumentando a preocupação de moradores e ambientalistas.
“O que mais incomoda é ter essa guilhotina em cima das nossas cabeças, um passivo que nem sequer é nosso”, afirma o ambientalista Daniel Tygel, da Aliança em Prol da APA da Pedra Branca.
A Prefeitura de Caldas afirma que a INB cumpre os compromissos ambientais assumidos com o município.
Soluções em estudo
A INB trabalha com três alternativas para definir o futuro do material:
- Acondicionamento definitivo em Caldas
- Envio para instalações licenciadas
- Venda da Torta II
Em 2024, a estatal lançou edital para venda de 15 mil toneladas de Torta II estocadas em Caldas, Interlagos e Botuxim (Itu). A falta de interessados levou à prorrogação do certame até dezembro.
Um desafio global
O Brasil ainda não possui um local definitivo para descarte de resíduos radioativos. Especialistas lembram que o problema é mundial:
- Alemanha estuda depósitos geológicos profundos e prevê definir um local até 2031.
- Finlândia já opera o primeiro depósito permanente do mundo, a 400 metros de profundidade.
- Estados Unidos acumulam mais de 90 mil toneladas de lixo nuclear, sem solução após impasses sobre Yucca Mountain.
O governo brasileiro planeja o Centena – Centro Tecnológico Nuclear e Ambiental, que deve ser o primeiro repositório de rejeitos radioativos da América Latina. O centro, porém, ainda está em fase de licenciamento e seleção de área e pode não receber a Torta II devido ao potencial comercial do material.
Outros passivos ambientais da INB Caldas
Além da Torta II, o descomissionamento exige soluções para:
- 15 milhões de m³ de rochas resultantes da mineração
- duas grandes pilhas de detritos, que geram água ácida infiltrada pela chuva
- barragens com diferentes níveis de alerta
- a cava da mina, preenchida por água contaminada pelo contato com rochas com materiais radioativos
A água ácida é captada e tratada continuamente pela INB. Relatórios do Ibama registram contaminação no Rio Soberbo, mas dentro dos limites permitidos.
A barragem de rejeitos, que já esteve em nível 1 de emergência, hoje está em nível de alerta após comprovação de estabilidade. Já a barragem D4, reclassificada em 2023, permanece no nível 1 de emergência.

Desmonte deve durar até três décadas
O processo completo de descomissionamento pode levar entre 20 e 30 anos, com orçamento estimado em R$ 688 milhões. Somando as décadas já passadas, a mina pode levar cerca de 60 anos entre o fechamento e sua recuperação final.
Segundo a INB, o caso de Caldas se tornou referência nacional para gestão de rejeitos e planejamento de descomissionamento, influenciando normas atuais para mineração e instalações nucleares.
Apesar da longa espera, a licença para o descomissionamento foi recebida com alívio pelo município.
“Mesmo demorando, agora temos um caminho, valores e prazos. Isso traz esperança”, afirma Tygel.
Uso futuro da área
Na fase final, os órgãos ambientais e nucleares definirão o uso futuro do terreno. As possibilidades incluem:
- uso restrito,
- reaproveitamento controlado,
- ou outra destinação condicionada à segurança radiológica.
Nada disso, porém, pode avançar enquanto o destino da Torta II — o maior entrave da INB Caldas — não for finalmente definido.
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INB finaliza 1ª etapa de demolição para descomissionamento da unidade em Caldas, MG — Foto: Divulgação/INB.
Fonte: Com informações de G1.
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